IA em bancos e seguradoras: por que trava antes da escala

Guilherme Matos • November 4, 2026

A IA trava entre o piloto e a escala em bancos e seguradoras porque os projetos param em pontos de gestão que se repetem: uso de IA fora do inventário, custo sem dono, dados e sistemas legados que não acompanham, modelos e fornecedores que ninguém consegue auditar e falta de gente nas áreas de negócio para redesenhar o processo. A adoção já aconteceu. Segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026, feita com a Deloitte, a IA é prioridade de investimento para 84% dos bancos, mas só 19% percebiam retorno sobre ela em 2025. Nas seguradoras, o estudo da CNseg com a EY de fevereiro de 2026 mostra IA em uso em 80% das empresas. Em instituição regulada, os cinco pontos de trava têm uma raiz comum: governança de dados. É ela que produz a evidência que o regulador cobra e a evidência de retorno que o conselho cobra.


Este texto mostra onde os projetos param, o que a regulação brasileira já exige de quem usa IA no setor financeiro e que perguntas a liderança pode fazer ao time ainda hoje.


O investimento já chegou, o retorno ainda não


Os bancos brasileiros devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, alta de 8% sobre 2025, segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026. Os aportes em desenvolvimento de IA passaram de R$ 596 milhões em 2024 para R$ 826 milhões em 2025. Mesmo assim, cerca de 60% das instituições ainda estão em fases iniciais de adoção, e a percepção de retorno, embora tenha subido de 5% em 2024 para 19% em 2025, segue restrita a uma minoria.


Nas seguradoras, o quadro é parecido. O estudo da CNseg com a EY, divulgado em fevereiro de 2026, projeta R$ 2,6 bilhões em IA em 2026, cerca de 1% da receita do setor, e aponta a integração com sistemas legados como a principal barreira, citada por 69% das empresas.


Fora do Brasil, a distância entre uso e resultado aparece nos mesmos termos. Na pesquisa The state of AI in 2025, publicada pela McKinsey em novembro de 2025, 39% dos respondentes atribuem algum impacto no EBIT à IA, e a maioria deles diz que esse impacto fica abaixo de 5%. O Gartner previu, em junho de 2025, que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027 por custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controles de risco insuficientes.


Tese da CSP Tech: em banco e seguradora, a prova de controle que o regulador pede e a prova de retorno que o conselho pede saem do mesmo lugar, um registro governado de dados que diz quem é o dono de cada base, por onde o dado passou, qual modelo o usou e quanto aquilo custou. Construir esse registro na plataforma de dados antes de escalar permite responder às duas cobranças com o mesmo trabalho, enquanto deixar a governança de dados para depois do piloto costuma travar a escala justamente na hora de provar.


A regulação já alcança a IA, mesmo sem citá-la pelo nome


Nenhuma norma do Banco Central ou da SUSEP trata a IA como categoria própria, mas as regras de segurança cibernética e de proteção de dados já valem para ela sempre que o uso envolve nuvem, terceiros, dados pessoais ou decisões automatizadas.


A Resolução CMN 4.893/2021, alterada pela Resolução CMN 5.274, de 18 de dezembro de 2025, estende os controles de segurança à adoção de novas tecnologias, exige trilhas de auditoria do processamento fim a fim dos dados, pede que o tempo de retenção das informações seja definido conforme o tipo de processamento e torna obrigatório o teste de intrusão com periodicidade mínima anual. As instituições em funcionamento tinham até 1º de março de 2026 para se adequar.


No mercado de seguros, a Circular SUSEP 638, de 27 de julho de 2021, determina que incidentes relevantes sejam comunicados à autarquia em até cinco dias úteis a partir do conhecimento do evento e que a contratação relevante de serviços de processamento, armazenamento de dados e computação em nuvem seja informada em até 30 dias após a formalização do contrato. A Lei Geral de Proteção de Dados, em seu artigo 20, garante ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado, o que alcança modelos de crédito, de subscrição e de prevenção a fraude.


O marco legal da IA ainda está em discussão. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e tramita em comissão especial na Câmara, com votação prevista para depois das eleições de outubro de 2026, segundo o relator, em entrevista ao Mobile Time de 24 de agosto de 2026.


Na prática, quase tudo o que essas normas pedem depende de dado governado: não há trilha fim a fim sem linhagem, a retenção por tipo de processamento exige saber que processamento é esse, e comunicar um incidente em cinco dias úteis fica difícil quando ninguém sabe quais bases e modelos foram afetados.


Cinco pontos onde a IA trava


1. IA que ninguém inventariou


O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, divulgado em julho de 2025, mostra que 87% das organizações estudadas no Brasil não tinham política de governança de IA. O uso não autorizado de IA, o chamado shadow AI, acrescentou em média R$ 591,4 mil ao custo de uma violação, que chegou a R$ 7,19 milhões no país e a R$ 8,92 milhões no setor financeiro. Sem inventário, a instituição também não sabe quais dados de clientes já passaram por ferramentas fora do seu controle, o que fragiliza qualquer resposta a incidente.


Pergunta para a diretoria: quantas ferramentas de IA estão em uso hoje e quais dados de clientes passam por elas?


2. Custo que cresce sem dono


Custo crescente e valor pouco claro estão entre as causas que o Gartner aponta para o cancelamento de projetos de IA agêntica. Em bancos e seguradoras, o problema costuma começar no desenho: a iniciativa nasce sem responsável pelo custo e sem meta de negócio, e a fatura de modelos e de computação aparece consolidada, sem separar o que cada caso consumiu. Sem esse corte, a percepção de retorno de 19% dos bancos dificilmente sobe, porque não há como mostrar o retorno de um caso específico.


Pergunta para a diretoria: cada iniciativa de IA tem um responsável pelo custo e uma meta definida antes de começar?


3. Legado e dados que não acompanham


A integração com sistemas legados é a barreira citada por 69% das seguradoras no estudo da CNseg com a EY. Em finanças e seguros, os sistemas centrais guardam regras de produto, de cálculo e de exceção que nenhum documento registra por completo. Quando o caso de IA depende desses dados, alguém precisa responder pelo significado de cada campo, pela qualidade da carga e pela permissão de uso. Sem dono definido, o piloto funciona com uma extração manual e a escala trava na hora de automatizar a alimentação.


Pergunta para a diretoria: os casos priorizados têm acesso aos dados de que precisam, com dono definido para cada base?


4. Fornecedores e modelos sem auditoria


Na pesquisa da McKinsey de 2025, 51% dos respondentes de organizações que usam IA relataram ao menos uma consequência negativa. Em instituição regulada, esse risco tem endereço certo: o auditor, o regulador ou o cliente que pede a revisão de uma decisão automatizada com base no artigo 20 da LGPD. Responder exige reconstituir a cadeia completa, do dado que entrou no modelo à resposta que saiu, inclusive quando o modelo é de um fornecedor externo.


Pergunta para a diretoria: conseguimos explicar a um auditor como um modelo chegou a uma decisão, com o dado que ele usou?


5. Pessoas e capacidade


A falta de expertise técnica e estratégica aparece para 46% das seguradoras no estudo da CNseg com a EY. A McKinsey mostra o outro lado: as empresas de alto desempenho em IA, cerca de 6% dos respondentes, têm quase três vezes mais chance de ter redesenhado fluxos de trabalho de forma profunda. A escala depende de alguém nas áreas de negócio que responda pelo resultado de cada caso e tenha autoridade para mudar o processo em volta dele.


Pergunta para a diretoria: quem, nas áreas de negócio, responde pelo resultado de cada caso de IA?


Por que os cinco pontos são, no fundo, governança de dados


Lidos em sequência, os cinco pontos pedem a mesma infraestrutura. Um inventário de IA funciona como catálogo, e o custo por iniciativa só aparece quando o registro de uso está associado a um dono. Para o dado do legado ser utilizável, cada base precisa de responsável, qualidade medida e permissão definida, e a auditoria de um modelo depende da linhagem somada ao registro das chamadas. A pessoa de negócio que responde pelo caso precisa enxergar tudo isso em um lugar só, e a governança de dados é a camada que liga o uso da IA a essa evidência.


Um levantamento da CSP Tech com 320 executivos de tecnologia em 2026 mostra que essa é a preocupação da liderança. Das 289 respostas válidas a uma pergunta aberta sobre os maiores desafios de tecnologia e inovação, 47% citaram IA, quase sempre ao lado de governança, segurança ou retorno. No grupo de instituições financeiras e seguradoras, que reuniu menos de 20 respostas, custo e retorno apareceram com peso maior do que na média, um sinal que vale registrar, mas que não permite generalizar.


Onde entra a plataforma de dados, e o que uma consultoria Databricks precisa entregar


Em instituições que já concentram dados em um lakehouse, parte dessa evidência pode ser produzida pela própria plataforma. No Databricks, o Unity Catalog registra a linhagem de tabelas e de colunas e os eventos de auditoria em tabelas de sistema, com retenção gratuita padrão de 365 dias, segundo a documentação oficial atualizada em novembro de 2026. As inference tables do AI Gateway gravam requisições e respostas dos modelos servidos, com o identificador de quem fez a chamada, em tabelas Delta governadas pelo próprio catálogo, e há tabelas de sistema, ainda em prévia pública, que registram consumo de tokens por requisição e gasto estimado com modelos externos.


Esses recursos ajudam, mas não fecham a conta sozinhos, e é aí que uma consultoria Databricks precisa ir além da implantação. A retenção padrão de 365 dias pode não coincidir com o prazo que a instituição definir para cada tipo de processamento sob a Resolução 4.893. As inference tables não registram requisições acima de 10 MiB e podem não registrar chamadas que terminam em erro. Os recursos em prévia pública mudam de comportamento com frequência. E nenhuma tabela de sistema decide quem é o dono de uma base ou qual meta de negócio justifica um caso de IA. O trabalho de governança de dados que destrava a escala combina a configuração da plataforma com essas decisões de gestão, registradas e revisadas.


O que separa quem escala de quem acumula pilotos


A diferença das empresas de alto desempenho em IA, segundo a McKinsey, está menos no modelo escolhido e mais no redesenho do trabalho em volta dele. Em finanças e seguros, esse redesenho tem uma condição adicional: precisa deixar rastro auditável. Uma instituição que começa pelo inventário, atribui dono e meta a cada caso, organiza os dados do legado com responsáveis e registra cada uso de IA consegue, ao mesmo tempo, responder ao regulador e mostrar ao conselho quais casos merecem mais investimento. Quem tenta escalar sem essa base costuma voltar ao piloto na primeira auditoria.


Quando essa abordagem é desproporcional


Há situações em que estruturar essa camada antes de avançar custa mais do que resolve. Um piloto interno, sem dados pessoais e sem decisão sobre clientes, pode seguir com uma política simples de ferramentas permitidas. Uma instituição de pequeno porte, com poucos sistemas e um único caso de IA, tende a resolver o inventário e o custo com controles manuais bem documentados. E, quando o caso usa apenas dados públicos ou sintéticos, a prioridade é o controle de custo, já que a exposição regulatória é menor.



Perguntas frequentes


Por que projetos de IA não saem do piloto em bancos e seguradoras?

Porque param em pontos de gestão que se repetem: uso de IA fora do inventário, custo sem dono, legado e dados que não acompanham, fornecedores e modelos sem auditoria e falta de pessoas nas áreas de negócio para redesenhar processos. Todos dependem de governança de dados, que produz a evidência exigida pelo regulador e a evidência de retorno exigida pelo conselho.


A regulação brasileira já exige controles sobre IA no setor financeiro?

Sim, mesmo sem citar IA pelo nome. A Resolução CMN 4.893/2021, alterada pela 5.274/2025, aplica controles de segurança à adoção de novas tecnologias e exige trilhas de auditoria fim a fim. A Circular SUSEP 638/2021 fixa prazos para comunicar incidentes e contratações de nuvem, e a LGPD garante a revisão de decisões automatizadas. O PL 2338/2023, marco legal da IA, ainda tramita na Câmara.


Quanto os bancos brasileiros investem em IA?

Segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026, feita com a Deloitte, os bancos investiram R$ 826 milhões em desenvolvimento de IA em 2025, ante R$ 596 milhões em 2024, dentro de um orçamento total de tecnologia previsto em R$ 50,4 bilhões para 2026. A IA é prioridade de investimento para 84% das instituições, e 19% percebiam retorno em 2025.


O que é shadow AI e quanto ela custa?

É o uso de ferramentas de IA por colaboradores fora do controle da empresa. No Brasil, segundo o relatório IBM Cost of a Data Breach 2025, ela acrescentou em média R$ 591,4 mil ao custo de uma violação de dados, que chegou a R$ 7,19 milhões no país e a R$ 8,92 milhões no setor financeiro.


Próximo passo


Faça um teste de dez minutos com o caso de IA mais avançado da sua instituição: quem é o dono dos dados que ele usa, quanto ele custou no último mês, quais registros mostram o que o modelo recebeu e respondeu, e quem na área de negócio responde pelo resultado. Se alguma resposta depende de uma estimativa ou de uma pessoa específica, é ali que a escala vai travar. Se quiser se aprofundar e entender o método da CSP Tech, agende uma reunião com nosso time.


Leituras relacionadas


Regulação e operação em instituições financeiras

Governança de dados e plataforma



Custo, escala e legado


Autor: Guilherme Matos, estrategista de conteúdo e IA, certificado HubSpot, Google, Anthropic e Semrush. Revisão técnica por especialistas Atlassian e de dados da CSP Tech (Atlassian Gold Partner, parceira Databricks, Microsoft Gold Partner, participante do Anthropic Partner Network, 38 anos de mercado, produto próprio Power BI for Jira no Atlassian Marketplace).

Fontes (acesso 04/11/2026): Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026, com Deloitte, conforme IT Forum de 30/06/2026 (“Percepção de ROI da inteligência artificial cresce 14 pontos percentuais entre os bancos brasileiros”) e Forbes Brasil de 26/06/2026: orçamento de R$ 50,4 bilhões em 2026, R$ 596 milhões (2024) e R$ 826 milhões (2025) em desenvolvimento de IA, cerca de 60% em fases iniciais, 84% com IA como prioridade e percepção de ROI de 5% (2024) para 19% (2025). CNseg e EY, estudo sobre IA no setor de seguros, conforme IT Forum de 26/02/2026: 80% das seguradoras usam IA, R$ 2,6 bilhões previstos para 2026, cerca de 1% da receita, 69% citam integração com legado e 46% falta de expertise. McKinsey, The state of AI in 2025, 05/11/2025: 39% com algum impacto no EBIT, maioria abaixo de 5%, cerca de 6% de alto desempenho, quase três vezes mais redesenho de fluxos e 51% com ao menos uma consequência negativa. Gartner, comunicado de 25/06/2025, conforme w.media de 27/06/2025: mais de 40% dos projetos de IA agêntica cancelados até o fim de 2027. IBM, Cost of a Data Breach 2025, comunicado de 30/07/2025: R$ 7,19 milhões, R$ 8,92 milhões no setor financeiro, R$ 591,4 mil de acréscimo por shadow AI e 87% sem política de governança de IA. Resolução CMN 5.274, de 18/12/2025, que altera a Resolução CMN 4.893/2021 (art. 3º, §§ 3º e 7º; art. 22-A; prazo de 1º/03/2026), texto em normasbrasil.com.br, e Finsiders Brasil de 18/12/2025. Circular SUSEP 638, de 27/07/2021, arts. 8º e 10. Lei 13.709/2018 (LGPD), art. 20. PL 2338/2023, conforme Teletime de 28/05/2026 e Mobile Time de 24/08/2026. Databricks Documentation, System tables (atualizada em 02/11/2026), e Microsoft Learn, Azure Databricks inference tables (atualizada em 18/09/2026). Levantamento da CSP Tech com respostas abertas de 320 executivos de tecnologia em 2026, classificadas por palavras-chave (289 válidas). A tese da evidência única e a leitura dos cinco pontos como governança de dados são formulação editorial da CSP Tech. Este conteúdo não constitui aconselhamento jurídico ou regulatório; a interpretação das normas cabe às áreas de compliance, riscos e jurídico da instituição

Fale com a CSP Tech

.

Por Guilherme Matos • 3 de novembro de 2026
A CSP Tech participou do Inovatech Executive Summit 2026, realizado em 27 de outubro no WTC São Paulo, como patrocinadora do encontro. Às 9h50, no Plenário, Lúcio Matias, Head de IA da CSP Tech, apresentou a palestra “O orçamento de inovação está preso no legado”, sobre um problema que aparece em quase toda conversa com CIOs: uma parte relevante do orçamento de TI já tem destino antes de qualquer decisão, porque precisa manter funcionando o que já existe. A mensagem central foi que a IA generativa acelera tudo, inclusive o erro, quando não conhece o sistema em que vai mexer. Por isso, a ordem de uso importa: primeiro usar a IA para entender o legado, com evidência registrada, e só depois para alterá-lo com governança e custo sob controle. No mesmo dia, a CSP Tech recebeu lideranças de tecnologia em um Almoço Executivo. Um marco para a CSP Tech: levar o debate para quem decide o orçamento Em 38 anos de mercado, a CSP Tech acumulou projetos de desenvolvimento, modernização, dados e plataformas Atlassian e Microsoft em empresas onde o sistema mais crítico costuma ser também o mais antigo. Levar essa experiência ao palco de um encontro de lideranças de tecnologia tem um peso especial para a empresa, porque coloca a discussão técnica diante de quem aprova o orçamento e responde pelo resultado dele. O Inovatech Executive Summit 2026 se propôs a discutir o que 2027 vai exigir da liderança de tecnologia, com palestras, painéis e casos sobre alocação de capital, IA, agentes, segurança e orçamento. A palestra da CSP Tech entrou nessa agenda com um recorte prático: antes de discutir quanto investir em IA, vale descobrir quanto do orçamento já está comprometido e por quê. A CSP Tech agradece a presença de todas as lideranças que participaram do Almoço Executivo e das conversas ao longo do dia. Foram trocas francas sobre o que funciona e o que ainda trava a adoção de IA nas empresas, e boa parte do que está neste texto nasceu delas. Tese da CSP Tech: o orçamento fica preso no legado quando a empresa perde o entendimento do próprio sistema, porque toda decisão sobre ele passa a ser tomada sem evidência e com margem de segurança cara. A ordem de uso da IA decide se ela libera ou consome orçamento: primeiro reconstruir o entendimento do sistema, com registro auditável e sem alterar código; só então mudar o código, com o contexto certo, modelo escolhido por tarefa e custo medido por entrega. O que preocupa as lideranças de tecnologia presentes no Summit A lista de participantes do evento trazia uma pergunta aberta: quais têm sido os maiores desafios para tecnologia e inovação nos tempos atuais. A CSP Tech classificou as respostas por tema, de forma agregada e sem identificar pessoas ou empresas. Das 320 inscrições da lista, 289 tinham resposta válida. Cerca de 63% dos inscritos ocupavam cargos de C-level, vice-presidência, diretoria ou head, e cerca de 35% vinham de empresas com mais de 5.000 funcionários. Quase metade das respostas válidas (136, ou 47%) cita IA, seja na adoção, na escala, no uso de agentes ou na IA generativa. Governança, segurança, risco e regulação aparecem em 103 respostas (36%), e custo, ROI, investimento e valor gerado em 68 (24%). O cruzamento é o dado mais revelador: 62 respostas (21%) citam IA junto com governança ou segurança, e 36 (12%) citam IA junto com custo ou retorno. Como uma mesma resposta pode tocar mais de um tema, os percentuais não somam 100%, e por se tratar de uma classificação por palavras-chave sobre respostas abertas, o retrato vale para o público do evento e não tem valor estatístico para o mercado como um todo. Na prática, a IA raramente aparece sozinha nas respostas. Ela aparece amarrada a governança, a segurança e à pergunta sobre retorno. Algumas respostas, transcritas sem identificação, resumem o problema que a palestra tratou: “transformar a POC de IA em ambiente produtivo”, “manter a empresa atualizada tecnologicamente quando se tem múltiplos débitos técnicos” e “trazer tecnologias como IA para empresas com processos e sistemas muito antigos”. Em outras palavras, o que as lideranças perguntam é como fazer a IA funcionar sobre a base de sistemas que a empresa já tem, com controle e com retorno que possa ser demonstrado. Até 40% do orçamento com destino definido: o que esse número quer dizer A descrição oficial da palestra na agenda do evento parte da constatação de que até 40% do gasto de TI ainda vai para manter os sistemas existentes. Faixas próximas aparecem nas pesquisas da McKinsey com CIOs, com uma diferença de base que vale entender antes de usar o número em uma apresentação ao conselho. Em outubro de 2020, a McKinsey relatou que CIOs estimam a dívida técnica em 20% a 40% do valor de todo o seu parque tecnológico antes da depreciação, e que de 10% a 20% do orçamento de tecnologia destinado a novos produtos acaba desviado para resolver problemas ligados a essa dívida. Em abril de 2023, a consultoria voltou ao tema para argumentar que separar de 15% a 20% do orçamento de TI para tratar a dívida técnica é insuficiente quando a empresa não muda a forma como ela é gerada e priorizada. Os números medem coisas diferentes, valor do parque em um caso e orçamento no outro, mas apontam na mesma direção da palestra. A leitura prática para o gestor é que o número exato varia por empresa e por método de medição, mas o mecanismo é o mesmo: cada projeto novo paga um pedágio para conviver com o que já existe. O primeiro passo para reduzir esse pedágio é medi-lo no próprio parque, por sistema, em vez de importar uma média de mercado. [INSERIR DADO REAL: percentual do orçamento de sustentação no parque do cliente, levantado no diagnóstico.] Por que a IA sem contexto acelera o erro no legado Na síntese que a CSP Tech publicou sobre a palestra, a ideia aparece de forma direta: sem contexto, a IA ganha velocidade na direção errada, e o contexto da empresa mora no legado, raramente na documentação. Em sistemas antigos, a documentação costuma estar desatualizada ou não existir, quem construiu já saiu e as dependências entre módulos ficam invisíveis. O código passa a ser o único registro confiável das regras de negócio. Quando um time joga arquivos inteiros desse código em um assistente de IA e pede uma alteração, três coisas acontecem ao mesmo tempo. O modelo tenta inferir relações que não enxerga, e a entrega pode quebrar outra parte do sistema. O consumo de tokens cresce sem relação com o valor entregue, porque o modelo recebe muito texto irrelevante. E, sem registro, ninguém consegue reconstituir depois qual contexto foi usado, qual modelo respondeu e quanto custou. Cada um desses sintomas tem um efeito direto no orçamento e uma pergunta que o gestor pode fazer ao time ainda hoje. O contexto incompleto vira retrabalho e incidente depois da entrega, e a pergunta é se a IA recebeu as dependências reais do trecho alterado. O envio de arquivos inteiros faz a fatura de IA crescer sem relação com o resultado, o que leva a perguntar quanto custou cada entrega feita com IA em cada projeto. O uso de ferramentas sem aprovação, o chamado shadow AI, coloca risco de vazamento e custo fora do radar, e pede um inventário de quais ferramentas e modelos estão em uso e por quem. Por fim, a falta de trilha torna a auditoria cara e as decisões difíceis de defender, porque ninguém consegue mostrar a um auditor o que foi gerado e com qual base. Esse retrato conversa diretamente com o que as lideranças escreveram no formulário do evento. A preocupação com governança de IA e com retorno é a mesma preocupação vista de dois lados: sem controle do contexto e do custo, nenhuma das duas pode ser demonstrada. A ordem que a CSP Tech defendeu no palco: entender antes de alterar A abordagem apresentada por Lúcio Matias organiza o uso da IA sobre o legado em uma sequência. Cada etapa entrega valor por si e prepara a seguinte, então a empresa decide até onde ir. 1. Reconstruir o conhecimento do sistema, sem alterar o código O ponto de partida é uma engenharia reversa assistida por IA. Em vez de tratar o código como texto, a análise lê a estrutura real dele (funções, classes, chamadas e dependências, extraídas da árvore sintática do código) e monta um mapa de relações. Sobre esse mapa, a IA ajuda a documentar fluxos, regras de negócio, riscos e dívida técnica. Nada é alterado no sistema nessa etapa, o que reduz o risco e permite começar mesmo em ambientes críticos. 2. Decidir com evidência entre manter, evoluir, modernizar ou reescrever Com o sistema mapeado, a decisão que costuma ser adiada por falta de dados passa a ter base, e cada caminho tem um momento em que faz sentido e um risco que precisa ser conhecido antes da escolha. Manter faz sentido quando o sistema é estável, muda pouco e o custo de sustentação está medido e aceito pela empresa, com o cuidado de acompanhar a obsolescência da tecnologia e a saída de quem ainda conhece o sistema. Evoluir é o caminho quando o negócio pede mudanças frequentes e o núcleo do sistema ainda atende, desde que cada alteração parta de um mapa de dependências, para não quebrar outra parte. Modernizar se justifica quando a plataforma limita escala, segurança ou integração, mas as regras de negócio continuam valendo, e o risco principal está em perder alguma dessas regras na migração se não houver rastreabilidade do sistema antigo para o novo. Reescrever só se sustenta quando a arquitetura impede o que o negócio precisa e as regras já estão documentadas, porque reescrever sem conhecer o que o sistema guarda costuma repetir o problema em uma tecnologia nova. 3. Executar com IA governada Quando chega a hora de alterar o código, a IA recebe apenas o recorte do mapa relevante para a tarefa, e não o sistema inteiro. O modelo é escolhido conforme a complexidade da tarefa e o orçamento definido, o resultado é validado contra critérios de aceite antes de entrar no código e cada chamada deixa um registro. O desenvolvedor continua na ferramenta que já usa; o controle fica na camada por trás dela. Esse registro funciona como a memória da operação. Para cada uso da IA, ele guarda em qual projeto e em qual tarefa ela foi acionada, quais partes do sistema entraram no contexto, qual modelo respondeu e por qual política foi escolhido, quantos tokens foram enviados, quanto aquilo custou, se o resultado passou nos critérios de aceite e quem foi o responsável. Com essas informações, a pergunta sobre quanto custou uma entrega feita com IA deixa de depender de estimativa. 4. Medir quanto do custo de sustentar virou capacidade de investir O fechamento da palestra foi sobre orçamento: o objetivo da sequência é transformar o custo de sustentar em capacidade de investir em inovação. Isso só pode ser demonstrado com medição antes e depois, por sistema, considerando horas de sustentação, incidentes, tempo de entrega e gasto com IA por entrega. Sem a linha de base levantada na primeira etapa, qualquer ganho vira estimativa. O que fica para o gestor de TI: antes de definir quanto investir em IA em 2027, vale definir em que ordem usá-la. Começar pelo entendimento do legado cria a evidência que falta para decidir e a linha de base que falta para provar retorno. A camada de governança, com a ressalva devida A preocupação com governança que apareceu nas respostas das lideranças tem referência formal. A norma ISO/IEC 42001, publicada em dezembro de 2023, estabelece requisitos para um sistema de gestão de inteligência artificial, com foco em uso responsável, gestão de riscos e transparência. Registrar contexto, modelo, custo e validação de cada uso de IA no desenvolvimento ajuda a gerar evidências para esse tipo de sistema de gestão e para auditorias de segurança da informação. Registrar evidência, porém, não equivale a estar em conformidade: a adequação a qualquer norma depende de escopo, processo e avaliação próprios, e não decorre do uso de uma ferramenta ou de um método. Quando essa abordagem é desproporcional Há cenários em que essa sequência custa mais do que resolve. Em um sistema pequeno, bem documentado e mantido por um time que o conhece, com dependências claras e mudanças raras, um mapeamento completo tende a ser desproporcional. Quando o sistema já tem data de desligamento definida e a substituição está contratada e próxima, o esforço rende mais se for para a migração dos dados e das regras críticas. E, se o uso de IA ainda é pontual e não toca código sensível, uma política clara de ferramentas permitidas e um inventário de uso resolvem a maior parte do risco antes de qualquer camada de controle. Perguntas frequentes O que foi o Inovatech Executive Summit 2026? Um encontro de lideranças de tecnologia e inovação realizado em 27 de outubro de 2026, no WTC São Paulo, com o tema do que 2027 vai exigir da liderança de tecnologia. A agenda reuniu palestras, painéis e casos sobre alocação de capital, IA, agentes, segurança e orçamento. Qual foi a participação da CSP Tech no Inovatech 2026? A CSP Tech foi patrocinadora do evento. Lúcio Matias, Head de IA da CSP Tech, apresentou às 9h50 a palestra “O orçamento de inovação está preso no legado”, sobre como usar a IA para entender sistemas legados antes de alterá-los e transformar custo de sustentação em capacidade de investir. A CSP Tech também recebeu lideranças de tecnologia em um Almoço Executivo durante o Summit. Por que a IA sem contexto aumenta o custo de manter sistemas legados? Porque o modelo não conhece as relações reais entre as partes de um sistema legado, que raramente estão documentadas. Ele infere essas relações, o que gera entregas que quebram outras partes e retrabalho. Enviar arquivos inteiros ao modelo também eleva o consumo de tokens sem ganho proporcional, e a falta de registro impede saber depois o que foi feito e quanto custou. Como começar a liberar orçamento preso no legado? Medindo antes de mudar. O primeiro passo é mapear o sistema e o custo de sustentação dele, sem alterar código, para ter evidência sobre dependências, riscos e dívida técnica. Com esse diagnóstico, a empresa decide entre manter, evoluir, modernizar ou reescrever, e passa a ter uma linha de base para provar o retorno de cada mudança, inclusive das feitas com IA. Próximo passo Faça um teste de dez minutos com o seu sistema mais crítico: quem hoje consegue explicar as regras de negócio dele sem abrir o código, quanto custou a sustentação dele no último ano e quanto do gasto com IA do time foi usado nele, com que contexto. Se alguma dessas respostas depende de uma pessoa ou de uma estimativa, o orçamento de 2027 desse sistema já está comprometido sem evidência. Receba um diagnóstico de legado da CSP Tech: um mapa do sistema, dos riscos e da dívida técnica, sem alteração no código, com a recomendação fundamentada entre manter, evoluir, modernizar ou reescrever. CSP Tech. Conectando pessoas, tecnologia e negócios. Autor: Guilherme Matos, estrategista de conteúdo e IA, certificado HubSpot, Google, Anthropic e Semrush. Revisão técnica por especialistas Atlassian e de dados da CSP Tech (Atlassian Gold Partner, parceira Databricks, Microsoft Gold Partner, participante do Anthropic Partner Network, 38 anos de mercado, produto próprio Power BI for Jira no Atlassian Marketplace). [INSERIR DADO REAL: nome e certificação do revisor].
segurança do Rovo MCP; permissões do servidor MCP da Atlassian;
Por Romildo Burguez • 27 de outubro de 2026
Agentes de IA já escrevem no Jira. Veja os controles de segurança do Rovo MCP que o administrador precisa revisar antes de liberar a escrita.
agentes de IA não autorizados; como identificar agentes de IA em sistemas corporativos?
Por Romildo Burguez • 26 de outubro de 2026
Bancos dos EUA detectaram agentes de IA não autorizados em contas de clientes. Entenda o que o caso revela sobre identidade, permissões e controle.
Por Guilherme Matos • 26 de outubro de 2026
Circuit breaker na B3: o que a interrupção de 26 de outubro exige da TI de bancos, corretoras e instituições de pagamento
governança de agentes de IA; Agentic Multiplayer Protocol; o que é o AMP da Atlassian?
Por Romildo Burguez • 23 de outubro de 2026
Sua equipe usa IA, mas o ganho não chega ao time. Veja o que a Atlassian anunciou no Team ’26 Europe sobre governança de agentes de IA e saiba como aplicar
empresa de intranet / intranet para bancos / intranet sharepoint instituição financeira
Por Guilherme Matos • 23 de outubro de 2026
Em instituição financeira, a intranet guarda normativos, recebe acesso de agências e de fora da rede e, com o Copilot, passa a alimentar respostas de IA. Veja os três caminhos para contratar uma intranet, os critérios que pesam no setor e a limitação honesta de cada um.
risco de sistemas legados; ataque hacker supermercados França; sistemas em fim de vida
Por Romildo Burguez • 22 de outubro de 2026
O ataque a supermercados na França expôs o risco de sistemas legados conectados. Entenda o que deu errado e veja como evitar o mesmo na sua operação
portfólio de projetos regulatórios / jira para instituições financeiras · consultoria jira
Por Guilherme Matos • 21 de outubro de 2026
Em banco, cooperativa e instituição de pagamento, parte do portfólio tem data definida pelo regulador. Veja por que esses projetos costumam perder espaço na priorização por valor e como estruturar no Jira a trilha da norma até a evidência e a validação de conformidade.
Por Guilherme Matos • 20 de outubro de 2026
Na intranet SharePoint, a permissão decide quem vê o documento, mas ninguém decide se ele ainda vale. Com o Copilot, a política vencida vira resposta atual. Veja os controles da Microsoft, o que o conector do Databricks não remove e como governar a vigência do conteúdo