IA em bancos e seguradoras: por que trava antes da escala
A IA trava entre o piloto e a escala em bancos e seguradoras porque os projetos param em pontos de gestão que se repetem: uso de IA fora do inventário, custo sem dono, dados e sistemas legados que não acompanham, modelos e fornecedores que ninguém consegue auditar e falta de gente nas áreas de negócio para redesenhar o processo. A adoção já aconteceu. Segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026, feita com a Deloitte, a IA é prioridade de investimento para 84% dos bancos, mas só 19% percebiam retorno sobre ela em 2025. Nas seguradoras, o estudo da CNseg com a EY de fevereiro de 2026 mostra IA em uso em 80% das empresas. Em instituição regulada, os cinco pontos de trava têm uma raiz comum: governança de dados. É ela que produz a evidência que o regulador cobra e a evidência de retorno que o conselho cobra.
Este texto mostra onde os projetos param, o que a regulação brasileira já exige de quem usa IA no setor financeiro e que perguntas a liderança pode fazer ao time ainda hoje.
O investimento já chegou, o retorno ainda não
Os bancos brasileiros devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, alta de 8% sobre 2025, segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026. Os aportes em desenvolvimento de IA passaram de R$ 596 milhões em 2024 para R$ 826 milhões em 2025. Mesmo assim, cerca de 60% das instituições ainda estão em fases iniciais de adoção, e a percepção de retorno, embora tenha subido de 5% em 2024 para 19% em 2025, segue restrita a uma minoria.
Nas seguradoras, o quadro é parecido. O estudo da CNseg com a EY, divulgado em fevereiro de 2026, projeta R$ 2,6 bilhões em IA em 2026, cerca de 1% da receita do setor, e aponta a integração com sistemas legados como a principal barreira, citada por 69% das empresas.
Fora do Brasil, a distância entre uso e resultado aparece nos mesmos termos. Na pesquisa The state of AI in 2025, publicada pela McKinsey em novembro de 2025, 39% dos respondentes atribuem algum impacto no EBIT à IA, e a maioria deles diz que esse impacto fica abaixo de 5%. O Gartner previu, em junho de 2025, que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027 por custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controles de risco insuficientes.
Tese da CSP Tech: em banco e seguradora, a prova de controle que o regulador pede e a prova de retorno que o conselho pede saem do mesmo lugar, um registro governado de dados que diz quem é o dono de cada base, por onde o dado passou, qual modelo o usou e quanto aquilo custou. Construir esse registro na plataforma de dados antes de escalar permite responder às duas cobranças com o mesmo trabalho, enquanto deixar a governança de dados para depois do piloto costuma travar a escala justamente na hora de provar.
A regulação já alcança a IA, mesmo sem citá-la pelo nome
Nenhuma norma do Banco Central ou da SUSEP trata a IA como categoria própria, mas as regras de segurança cibernética e de proteção de dados já valem para ela sempre que o uso envolve nuvem, terceiros, dados pessoais ou decisões automatizadas.
A Resolução CMN 4.893/2021, alterada pela Resolução CMN 5.274, de 18 de dezembro de 2025, estende os controles de segurança à adoção de novas tecnologias, exige trilhas de auditoria do processamento fim a fim dos dados, pede que o tempo de retenção das informações seja definido conforme o tipo de processamento e torna obrigatório o teste de intrusão com periodicidade mínima anual. As instituições em funcionamento tinham até 1º de março de 2026 para se adequar.
No mercado de seguros, a Circular SUSEP 638, de 27 de julho de 2021, determina que incidentes relevantes sejam comunicados à autarquia em até cinco dias úteis a partir do conhecimento do evento e que a contratação relevante de serviços de processamento, armazenamento de dados e computação em nuvem seja informada em até 30 dias após a formalização do contrato. A Lei Geral de Proteção de Dados, em seu artigo 20, garante ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado, o que alcança modelos de crédito, de subscrição e de prevenção a fraude.
O marco legal da IA ainda está em discussão. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e tramita em comissão especial na Câmara, com votação prevista para depois das eleições de outubro de 2026, segundo o relator, em entrevista ao Mobile Time de 24 de agosto de 2026.
Na prática, quase tudo o que essas normas pedem depende de dado governado: não há trilha fim a fim sem linhagem, a retenção por tipo de processamento exige saber que processamento é esse, e comunicar um incidente em cinco dias úteis fica difícil quando ninguém sabe quais bases e modelos foram afetados.
Cinco pontos onde a IA trava
1. IA que ninguém inventariou
O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, divulgado em julho de 2025, mostra que 87% das organizações estudadas no Brasil não tinham política de governança de IA. O uso não autorizado de IA, o chamado shadow AI, acrescentou em média R$ 591,4 mil ao custo de uma violação, que chegou a R$ 7,19 milhões no país e a R$ 8,92 milhões no setor financeiro. Sem inventário, a instituição também não sabe quais dados de clientes já passaram por ferramentas fora do seu controle, o que fragiliza qualquer resposta a incidente.
Pergunta para a diretoria: quantas ferramentas de IA estão em uso hoje e quais dados de clientes passam por elas?
2. Custo que cresce sem dono
Custo crescente e valor pouco claro estão entre as causas que o Gartner aponta para o cancelamento de projetos de IA agêntica. Em bancos e seguradoras, o problema costuma começar no desenho: a iniciativa nasce sem responsável pelo custo e sem meta de negócio, e a fatura de modelos e de computação aparece consolidada, sem separar o que cada caso consumiu. Sem esse corte, a percepção de retorno de 19% dos bancos dificilmente sobe, porque não há como mostrar o retorno de um caso específico.
Pergunta para a diretoria: cada iniciativa de IA tem um responsável pelo custo e uma meta definida antes de começar?
3. Legado e dados que não acompanham
A integração com sistemas legados é a barreira citada por 69% das seguradoras no estudo da CNseg com a EY. Em finanças e seguros, os sistemas centrais guardam regras de produto, de cálculo e de exceção que nenhum documento registra por completo. Quando o caso de IA depende desses dados, alguém precisa responder pelo significado de cada campo, pela qualidade da carga e pela permissão de uso. Sem dono definido, o piloto funciona com uma extração manual e a escala trava na hora de automatizar a alimentação.
Pergunta para a diretoria: os casos priorizados têm acesso aos dados de que precisam, com dono definido para cada base?
4. Fornecedores e modelos sem auditoria
Na pesquisa da McKinsey de 2025, 51% dos respondentes de organizações que usam IA relataram ao menos uma consequência negativa. Em instituição regulada, esse risco tem endereço certo: o auditor, o regulador ou o cliente que pede a revisão de uma decisão automatizada com base no artigo 20 da LGPD. Responder exige reconstituir a cadeia completa, do dado que entrou no modelo à resposta que saiu, inclusive quando o modelo é de um fornecedor externo.
Pergunta para a diretoria: conseguimos explicar a um auditor como um modelo chegou a uma decisão, com o dado que ele usou?
5. Pessoas e capacidade
A falta de expertise técnica e estratégica aparece para 46% das seguradoras no estudo da CNseg com a EY. A McKinsey mostra o outro lado: as empresas de alto desempenho em IA, cerca de 6% dos respondentes, têm quase três vezes mais chance de ter redesenhado fluxos de trabalho de forma profunda. A escala depende de alguém nas áreas de negócio que responda pelo resultado de cada caso e tenha autoridade para mudar o processo em volta dele.
Pergunta para a diretoria: quem, nas áreas de negócio, responde pelo resultado de cada caso de IA?
Por que os cinco pontos são, no fundo, governança de dados
Lidos em sequência, os cinco pontos pedem a mesma infraestrutura. Um inventário de IA funciona como catálogo, e o custo por iniciativa só aparece quando o registro de uso está associado a um dono. Para o dado do legado ser utilizável, cada base precisa de responsável, qualidade medida e permissão definida, e a auditoria de um modelo depende da linhagem somada ao registro das chamadas. A pessoa de negócio que responde pelo caso precisa enxergar tudo isso em um lugar só, e a governança de dados é a camada que liga o uso da IA a essa evidência.
Um levantamento da CSP Tech com 320 executivos de tecnologia em 2026 mostra que essa é a preocupação da liderança. Das 289 respostas válidas a uma pergunta aberta sobre os maiores desafios de tecnologia e inovação, 47% citaram IA, quase sempre ao lado de governança, segurança ou retorno. No grupo de instituições financeiras e seguradoras, que reuniu menos de 20 respostas, custo e retorno apareceram com peso maior do que na média, um sinal que vale registrar, mas que não permite generalizar.
Onde entra a plataforma de dados, e o que uma consultoria Databricks precisa entregar
Em instituições que já concentram dados em um lakehouse, parte dessa evidência pode ser produzida pela própria plataforma. No Databricks, o Unity Catalog registra a linhagem de tabelas e de colunas e os eventos de auditoria em tabelas de sistema, com retenção gratuita padrão de 365 dias, segundo a documentação oficial atualizada em novembro de 2026. As inference tables do AI Gateway gravam requisições e respostas dos modelos servidos, com o identificador de quem fez a chamada, em tabelas Delta governadas pelo próprio catálogo, e há tabelas de sistema, ainda em prévia pública, que registram consumo de tokens por requisição e gasto estimado com modelos externos.
Esses recursos ajudam, mas não fecham a conta sozinhos, e é aí que uma consultoria Databricks precisa ir além da implantação. A retenção padrão de 365 dias pode não coincidir com o prazo que a instituição definir para cada tipo de processamento sob a Resolução 4.893. As inference tables não registram requisições acima de 10 MiB e podem não registrar chamadas que terminam em erro. Os recursos em prévia pública mudam de comportamento com frequência. E nenhuma tabela de sistema decide quem é o dono de uma base ou qual meta de negócio justifica um caso de IA. O trabalho de governança de dados que destrava a escala combina a configuração da plataforma com essas decisões de gestão, registradas e revisadas.
O que separa quem escala de quem acumula pilotos
A diferença das empresas de alto desempenho em IA, segundo a McKinsey, está menos no modelo escolhido e mais no redesenho do trabalho em volta dele. Em finanças e seguros, esse redesenho tem uma condição adicional: precisa deixar rastro auditável. Uma instituição que começa pelo inventário, atribui dono e meta a cada caso, organiza os dados do legado com responsáveis e registra cada uso de IA consegue, ao mesmo tempo, responder ao regulador e mostrar ao conselho quais casos merecem mais investimento. Quem tenta escalar sem essa base costuma voltar ao piloto na primeira auditoria.
Quando essa abordagem é desproporcional
Há situações em que estruturar essa camada antes de avançar custa mais do que resolve. Um piloto interno, sem dados pessoais e sem decisão sobre clientes, pode seguir com uma política simples de ferramentas permitidas. Uma instituição de pequeno porte, com poucos sistemas e um único caso de IA, tende a resolver o inventário e o custo com controles manuais bem documentados. E, quando o caso usa apenas dados públicos ou sintéticos, a prioridade é o controle de custo, já que a exposição regulatória é menor.
Perguntas frequentes
Por que projetos de IA não saem do piloto em bancos e seguradoras?
Porque param em pontos de gestão que se repetem: uso de IA fora do inventário, custo sem dono, legado e dados que não acompanham, fornecedores e modelos sem auditoria e falta de pessoas nas áreas de negócio para redesenhar processos. Todos dependem de governança de dados, que produz a evidência exigida pelo regulador e a evidência de retorno exigida pelo conselho.
A regulação brasileira já exige controles sobre IA no setor financeiro?
Sim, mesmo sem citar IA pelo nome. A Resolução CMN 4.893/2021, alterada pela 5.274/2025, aplica controles de segurança à adoção de novas tecnologias e exige trilhas de auditoria fim a fim. A Circular SUSEP 638/2021 fixa prazos para comunicar incidentes e contratações de nuvem, e a LGPD garante a revisão de decisões automatizadas. O PL 2338/2023, marco legal da IA, ainda tramita na Câmara.
Quanto os bancos brasileiros investem em IA?
Segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026, feita com a Deloitte, os bancos investiram R$ 826 milhões em desenvolvimento de IA em 2025, ante R$ 596 milhões em 2024, dentro de um orçamento total de tecnologia previsto em R$ 50,4 bilhões para 2026. A IA é prioridade de investimento para 84% das instituições, e 19% percebiam retorno em 2025.
O que é shadow AI e quanto ela custa?
É o uso de ferramentas de IA por colaboradores fora do controle da empresa. No Brasil, segundo o relatório IBM Cost of a Data Breach 2025, ela acrescentou em média R$ 591,4 mil ao custo de uma violação de dados, que chegou a R$ 7,19 milhões no país e a R$ 8,92 milhões no setor financeiro.
Próximo passo
Faça um teste de dez minutos com o caso de IA mais avançado da sua instituição: quem é o dono dos dados que ele usa, quanto ele custou no último mês, quais registros mostram o que o modelo recebeu e respondeu, e quem na área de negócio responde pelo resultado. Se alguma resposta depende de uma estimativa ou de uma pessoa específica, é ali que a escala vai travar. Se quiser se aprofundar e entender o método da CSP Tech, agende uma reunião com nosso time.
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Autor:
Guilherme Matos, estrategista de conteúdo e IA, certificado HubSpot, Google, Anthropic e Semrush. Revisão técnica por especialistas Atlassian e de dados da CSP Tech (Atlassian Gold Partner, parceira Databricks, Microsoft Gold Partner, participante do Anthropic Partner Network, 38 anos de mercado, produto próprio Power BI for Jira no Atlassian Marketplace).
Fontes (acesso 04/11/2026):
Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2026, com Deloitte, conforme IT Forum de 30/06/2026 (“Percepção de ROI da inteligência artificial cresce 14 pontos percentuais entre os bancos brasileiros”) e Forbes Brasil de 26/06/2026: orçamento de R$ 50,4 bilhões em 2026, R$ 596 milhões (2024) e R$ 826 milhões (2025) em desenvolvimento de IA, cerca de 60% em fases iniciais, 84% com IA como prioridade e percepção de ROI de 5% (2024) para 19% (2025). CNseg e EY, estudo sobre IA no setor de seguros, conforme IT Forum de 26/02/2026: 80% das seguradoras usam IA, R$ 2,6 bilhões previstos para 2026, cerca de 1% da receita, 69% citam integração com legado e 46% falta de expertise. McKinsey, The state of AI in 2025, 05/11/2025: 39% com algum impacto no EBIT, maioria abaixo de 5%, cerca de 6% de alto desempenho, quase três vezes mais redesenho de fluxos e 51% com ao menos uma consequência negativa. Gartner, comunicado de 25/06/2025, conforme w.media de 27/06/2025: mais de 40% dos projetos de IA agêntica cancelados até o fim de 2027. IBM, Cost of a Data Breach 2025, comunicado de 30/07/2025: R$ 7,19 milhões, R$ 8,92 milhões no setor financeiro, R$ 591,4 mil de acréscimo por shadow AI e 87% sem política de governança de IA. Resolução CMN 5.274, de 18/12/2025, que altera a Resolução CMN 4.893/2021 (art. 3º, §§ 3º e 7º; art. 22-A; prazo de 1º/03/2026), texto em normasbrasil.com.br, e Finsiders Brasil de 18/12/2025. Circular SUSEP 638, de 27/07/2021, arts. 8º e 10. Lei 13.709/2018 (LGPD), art. 20. PL 2338/2023, conforme Teletime de 28/05/2026 e Mobile Time de 24/08/2026. Databricks Documentation, System tables (atualizada em 02/11/2026), e Microsoft Learn, Azure Databricks inference tables (atualizada em 18/09/2026). Levantamento da CSP Tech com respostas abertas de 320 executivos de tecnologia em 2026, classificadas por palavras-chave (289 válidas). A tese da evidência única e a leitura dos cinco pontos como governança de dados são formulação editorial da CSP Tech. Este conteúdo não constitui aconselhamento jurídico ou regulatório; a interpretação das normas cabe às áreas de compliance, riscos e jurídico da instituição










