Circuit breaker na B3: o que a interrupção de 26 de outubro exige da TI de bancos, corretoras e instituições de pagamento

Guilherme Matos • October 26, 2026

Em 26 de outubro de 2026, no primeiro pregão após o segundo turno das eleições, a B3 comunicou o acionamento do circuit breaker e suspendeu por 30 minutos a negociação de ativos à vista, renda fixa privada, opções referenciadas em ações, BDRs, índices e ETFs, com retomada em leilão das 10h30 às 10h35. No mesmo comunicado, a B3 informou que, durante esse período, as ofertas que não estivessem participando do leilão poderiam ser canceladas. O circuit breaker é acionado pela B3, e nenhum participante, corretora ou investidor dispara o mecanismo. Pelo Manual de Procedimentos Operacionais de Negociação da B3, de 1º de julho de 2026, a primeira interrupção, de 30 minutos, corresponde à queda de 10% ou mais do Ibovespa em relação ao fechamento anterior. Para bancos, corretoras e instituições de pagamento, o dia tem um efeito prático: cada sistema que envia ordens, consome dados de mercado ou calcula posições precisa reconhecer a interrupção e a retomada, e cada time precisa saber o que fazer nesse intervalo. É nessa parte que entram a gestão de incidentes e mudanças no Jira Service Management, os dados de mercado e de posição no Databricks e a adaptação de sistemas internos.

O que aconteceu, segundo a B3


O comunicado da B3 de 26 de outubro de 2026 informa a suspensão da negociação dos ativos listados por 30 minutos em razão do acionamento do circuit breaker, a retomada em leilão das 10h30 às 10h35 e a possibilidade de cancelamento das ofertas que não estivessem participando do leilão. O comunicado não informa a variação do Ibovespa nem o horário exato do acionamento. Até a publicação deste texto não houve alteração.


Este artigo não trata das causas do movimento de mercado nem faz leitura política do dia. O foco é o que o evento exige da operação de tecnologia das instituições que negociam, custodiam, liquidam ou consomem dados da bolsa.


Como o mecanismo funciona, pela norma da B3


Segundo o Manual de Procedimentos Operacionais de Negociação da B3, de 1º de julho de 2026, item 13, o circuit breaker tem três estágios sequenciais vinculados à queda do Ibovespa divulgado pela B3 em relação ao fechamento do pregão anterior. Os estágios são sequenciais: o segundo e o terceiro só se aplicam depois de uma retomada.

Três regras de horário e de retomada importam para os sistemas. Os estágios não são aplicados nos últimos 30 minutos do pregão. Quando o acionamento ocorre na última hora, o encerramento do pregão é prorrogado para permitir a reabertura e um período de negociação contínua, com a duração definida no item 13 do manual. A retomada é precedida de leilão, com duração definida pela B3. Pelo Regulamento de Negociação da B3, de 30 de junho de 2025, arts. 93 e 94, antes da retomada a B3 pode permitir que os participantes cancelem ofertas anteriores à interrupção ou cancelá-las ela mesma, e o leilão segue as mesmas regras dos calls de abertura e fechamento.


Sobre a abrangência, a interrupção alcança os mercados administrados pela B3 abrangidos pelo Regulamento de Negociação. O próprio regulamento, no art. 1º, § 2º, exclui o ambiente de renda fixa privada Cetip Trade do seu escopo. Por isso não é correto dizer que toda a renda fixa ou todas as plataformas da B3 param.


A tese deste guia: num circuit breaker, a B3 decide quando o mercado para e quando volta. O que cada instituição decide é como os seus sistemas e o seu time se comportam entre esses dois momentos. Um dia como 26 de outubro funciona como teste não planejado da operação de TI, e as lacunas que ele revela são as mesmas que aparecem em qualquer evento crítico: leitura do estado real do mercado, decisão sobre ordens, comunicação, mudanças em produção e reconciliação depois da retomada.



O que a B3 faz e o que a instituição controla em cada momento

A tabela separa, em cada momento do evento, o que está na norma da B3, o que a instituição controla e onde está o trabalho de tecnologia. A coluna de natureza indica se a afirmação é norma, especificação técnica documentada ou recomendação de engenharia.

Onde a TI da instituição entra

Ler o estado oficial do mercado, e não estimá-lo


A B3 divulga mudanças de fase e de status de negociação pelo seu canal de dados de mercado, o UMDF. O Binary UMDF Message Reference, versão 2.2.0, de 7 de agosto de 2025, descreve, entre outros, o template SecurityGroupPhase (10), para a fase de um grupo de instrumentos, o SecurityStatus (3), para o status de cada instrumento, e os templates TheoreticalOpeningPrice (16) e AuctionImbalance (19), com preço teórico e desequilíbrio durante o leilão. Essas mensagens comunicam o estado do mercado e não acionam o circuit breaker. A documentação pública também não descreve como a B3 detecta e dispara o mecanismo internamente, e este artigo não faz suposições sobre isso.

Como recomendação de engenharia para sistemas de terceiros, vale manter uma máquina de estados por instrumento e por grupo, alimentada por essas mensagens, e aplicar as regras de envio de ordem conforme a fase. Um alerta interno de proximidade do gatilho pode ser útil, desde que fique claro que a referência oficial é o Ibovespa divulgado pela B3, e não a estimativa calculada pelo sistema da instituição.


Recomendação de engenharia (sistemas de terceiros, não descreve a B3)


 estado por instrumento e por grupo <- SecurityStatus / SecurityGroupPhase
  fase de leilão                     <- preço teórico e desequilíbrio
  envio de ordens                    -> conforme o que a fase permite
  fim do leilão                      -> horário estimado, não garantido


Ordens durante a interrupção e o leilão


O comunicado do dia repetiu a regra: ofertas que não participam do leilão podem ser canceladas. O manual da B3 também veda ofertas stop durante o leilão (p. 39). Como recomendação, a instituição deve ter pronta a rotina de cancelamento em massa para a janela anterior à reabertura, quando o tipo de acesso permitir, e regras de envio que respeitem o que cada fase admite, sem bloquear indiscriminadamente toda entrada de ordens.


Durante o evento: incidente próprio, crise e mudanças


O circuit breaker é um evento da B3, e não um incidente da instituição. O dia, porém, costuma gerar incidentes próprios: volume atípico de chamados, sistemas que não reconheceram a fase, atrasos em telas e relatórios. Para instituições financeiras, a Resolução CMN 4.893/2021, alterada pela Resolução CMN 5.274/2025, pede critérios documentados de situação de crise e registro de incidentes relevantes, e a Resolução BCB 85/2021, alterada pela Resolução BCB 538/2025, trata do tema para instituições de pagamento. Cabe a cada instituição avaliar, pelos seus critérios, se algum efeito interno do dia configurou incidente relevante ou situação de crise.


No Jira Service Management, isso se traduz em um procedimento de evento de mercado com dono, checklist e registro, em incidentes próprios classificados e documentados e em regra de bloqueio de mudanças em produção durante o pregão afetado, com exceções aprovadas e registradas. A gestão de incidentes regulada está detalhada no artigo do cluster sobre a Resolução 4.893.


Depois da retomada: reconciliação e linhagem


Depois de uma interrupção, ordens canceladas, ofertas reapresentadas, o leilão de reabertura e o volume atípico tornam a reconciliação mais sensível. Como recomendação, a instituição deve conciliar livro de ofertas, execuções e posições com as informações oficiais, com reprocessamento quando necessário. Numa plataforma de dados como o Databricks, isso significa preservar na camada bruta os dados de mercado e de operações do dia, como a arquitetura medalhão prevê, e usar a linhagem do Unity Catalog para saber quais relatórios, indicadores e modelos dependem daqueles dados antes de recalculá-los.


O circuit breaker não pode ser acionado pela instituição, mas a resposta a ele pode ser preparada antes. Quem só descobre no dia do evento que um sistema não reconhece a fase de leilão ou que ninguém sabe quem cancela as ofertas descobre ao vivo, com o mercado olhando.


O que a B3 exige de quem se conecta à bolsa


O Manual de Procedimentos Operacionais de Negociação, de 1º de julho de 2026, traz exigências que valem conforme a categoria de cada participante e o tipo de conexão. Entre elas: software de negociação certificado, com versão no formato M.m.R.B e nova certificação em alteração material (p. 15); testes diários de conectividade, cobrindo conexões relevantes, pelo menos uma de contingência e canais de dados de mercado ou drop copy (p. 16); e controles de risco tecnológico como risco pré-negociação, controle de mensagens, proteção ao mercado, throttle e cancelamento automático por desconexão (capítulo IV). Exigências de testes de contingência dependem do comunicado de cada sessão: o Comunicado


Externo 021/2026, por exemplo, exige que corretoras do Listado B3 participem de no mínimo duas validações do plano de continuidade da plataforma PUMA.


Nenhuma dessas exigências vale de forma igual para todo software ou todo desenvolvedor. A obrigação depende da categoria de participante e do comunicado aplicável, e é isso que cada instituição precisa confirmar com a própria área de compliance e com a B3.


A camada normativa, com a ressalva devida


Há duas divergências documentais que este texto registra em vez de esconder. A primeira trata da prorrogação do pregão quando o acionamento ocorre na última hora: o comunicado da B3 de 18 de março de 2020 fala em prorrogação de no máximo 30 minutos, e há relato de que o manual de 1º de julho de 2026, item 13.1, inciso II, fala em no mínimo 30 minutos. A segunda trata da redação do terceiro estágio, que o comunicado de 2020 descreve como possibilidade e o manual de 2026 descreve como determinação da B3. Até a conferência direta do manual vigente, o texto usa a redação mais conservadora. Também não há documento público que diga se a detecção e o disparo são totalmente automáticos ou passam por decisão de um operador da B3.


Duas ressalvas honestas. A primeira é que este artigo trata da operação de tecnologia das instituições e não analisa o movimento de mercado, suas causas ou o contexto político do dia. A segunda é que normas e especificações da B3 mudam várias vezes por ano, e cada referência precisa ser conferida na versão vigente antes de orientar qualquer implementação.


Quando essa revisão é desproporcional


•  Instituição que não negocia em bolsa nem consome dados de mercado da B3. Para quem só sente o efeito indireto, a revisão se resume a comunicação interna e ao atendimento a clientes.

•  Acesso exclusivo por meio de um intermediário que opera tudo. Se outra instituição envia as ordens e processa os dados, a revisão começa pelo contrato e pelo acordo de nível de serviço com esse intermediário.

•  Dia sem efeito interno registrado. Se os sistemas reconheceram as fases, as ofertas foram tratadas conforme a política e não houve incidente próprio, basta registrar o que funcionou e manter o procedimento.



Perguntas frequentes


Quem aciona o circuit breaker da B3?

A própria B3. O Regulamento de Negociação da B3, de 30 de junho de 2025, art. 92, inciso II, prevê que a bolsa pode interromper a sessão ou a negociação por volatilidade excessiva, com acionamento do circuit breaker nos termos do manual. Nenhum participante, corretora ou investidor aciona o mecanismo. A documentação pública não informa se a detecção e o disparo são totalmente automáticos ou dependem de decisão de um operador.


O que aconteceu no circuit breaker de 26 de outubro de 2026?

Segundo comunicado da B3 de 26 de outubro de 2026, a negociação de ativos à vista, renda fixa privada, opções referenciadas em ações, BDRs, índices e ETFs foi suspensa por 30 minutos em razão do acionamento do circuit breaker, com retomada em leilão das 10h30 às 10h35. A B3 informou que ofertas fora do leilão poderiam ser canceladas. Pelo manual da B3, a interrupção de 30 minutos corresponde ao primeiro estágio, ligado à queda de 10% ou mais do Ibovespa em relação ao fechamento anterior.


O que acontece com as ordens durante um circuit breaker?

Pelo Regulamento de Negociação da B3, antes da retomada a bolsa pode permitir que os participantes cancelem ofertas anteriores à interrupção ou cancelá-las ela mesma, e a retomada ocorre por leilão. No comunicado de 26 de outubro de 2026, a B3 informou que ofertas fora do leilão poderiam ser canceladas. O manual também veda ofertas stop durante o leilão. A forma como cada ordem é tratada depende da corretora e do tipo de acesso.


Como a TI de uma instituição financeira deve se preparar para um circuit breaker?

Com sistemas que reconhecem o estado oficial do mercado pelas mensagens de fase e status divulgadas pela B3, rotina pronta de cancelamento de ofertas quando o acesso permitir, procedimento de evento de mercado com dono e registro, bloqueio de mudanças em produção durante o pregão afetado e reconciliação de ordens, posições e dados depois da retomada, com linhagem para saber o que precisa ser recalculado. As exigências oficiais de certificação e testes dependem da categoria de cada participante.


Próximo passo


Faça um teste de dez minutos com o registro de hoje: em que horário os seus sistemas reconheceram a interrupção e a retomada, quais ofertas foram canceladas e por decisão de quem, houve alguma mudança aplicada em produção durante o pregão e algum incidente próprio foi aberto e classificado. Se alguma dessas respostas não estiver registrada, o próximo evento vai encontrar a mesma lacuna. Solicite uma revisão pós-evento da operação de TI da sua instituição com a CSP Tech e receba o mapa do seu caso: o que funcionou em 26 de outubro, o que dependeu de improviso e o que precisa estar pronto antes do próximo evento de mercado.

Autor: Guilherme Matos, estrategista de conteúdo e IA, certificado HubSpot, Google, Anthropic e Semrush e acionista na B3. Revisão técnica por especialistas Atlassian e de dados da CSP Tech (Atlassian Gold Partner, parceira Databricks, Microsoft Gold Partner, participante do Anthropic Partner Network, 34 anos de mercado, produto próprio Power BI for Jira no Atlassian Marketplace).


Fontes (oficiais, acesso 26/10/2026): B3, comunicado de 26 de outubro de 2026 sobre o acionamento do circuit breaker, a suspensão por 30 minutos, a retomada em leilão das 10h30 às 10h35 e o cancelamento de ofertas fora do leilão (b3.com.br/pt_br/noticias/b3-informa.htm). B3, Manual de Procedimentos Operacionais de Negociação, versão de 1º de julho de 2026, item 13 (pp. 116 e 117), p. 15 (certificação de software), p. 16 (testes de conectividade), p. 39 (vedação de ofertas stop em leilão) e capítulo IV (controles de risco tecnológico), conforme a base de conhecimento editorial verificada em 26/10/2026; o PDF do manual não pôde ser reaberto diretamente nesta produção e deve ser conferido antes da publicação. B3, Regulamento de Negociação (B3 Trading Rules, versão em inglês de 30 de junho de 2025), art. 1º, § 2º, e arts. 92 a 94. B3, comunicado Circuit breaker, de 18 de março de 2020, como fonte histórica das divergências registradas. B3, Binary UMDF Message Reference, versão 2.2.0, de 7 de agosto de 2025, templates 3, 10, 16 e 19. B3, Comunicado Externo 021/2026, sobre os testes do plano de continuidade da plataforma PUMA. Resolução CMN nº 4.893/2021, alterada pela Resolução CMN nº 5.274/2025, e Resolução BCB nº 85/2021, alterada pela Resolução BCB nº 538/2025, quanto a critérios de crise e registro de incidentes relevantes. Databricks Documentation, quanto à arquitetura medalhão e à linhagem do Unity Catalog. Atlassian, documentação do Jira Service Management quanto a incidentes e mudanças. A tese do teste não planejado e a tabela do que a B3 faz e do que a instituição controla são formulação editorial da CSP Tech, e as recomendações de engenharia descrevem boas práticas para sistemas de terceiros, sem descrever a arquitetura interna da B3. Este conteúdo trata de operação, processo e governança de tecnologia em instituições financeiras. Não constitui recomendação de investimento, análise de mercado ou análise política, não descreve a arquitetura interna da B3 e não substitui a leitura das normas vigentes pelas áreas de compliance e jurídico

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