Eleições na era da Inteligência Artificial: ferramenta que aproxima ou ameaça que confunde?

Romildo Burguez • December 18, 2025

A Inteligência Artificial já não é mais uma promessa distante. Ela está no seu teclado completando frases, no seu celular traduzindo áudios, no atendimento automático do banco e até nos filtros que você usa sem pensar. E é exatamente por isso que, nas próximas eleições, a Inteligência Artificial não vai “chegar” do nada: ela já está aqui — só vai ficar mais visível, mais barata e mais fácil de usar. 


O debate real não é “IA é boa ou ruim?”. O ponto é mais desconfortável: a mesma tecnologia que pode ajudar a democracia a funcionar melhor também pode ser usada para bagunçar a percepção pública. É como um megafone: ele pode amplificar a informação correta… ou espalhar ruído. 


No Brasil, esse tema ficou ainda mais sério porque 2026 tende a ser a primeira eleição geral vivendo, na prática, o impacto do regramento recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre uso de IA em propaganda, que inclui proibição de deepfakes e exigência de aviso de transparência quando houver conteúdo fabricado ou manipulado. 


A seguir, vamos olhar para os dois lados com calma — e, principalmente, trazer ideias úteis para o dia a dia de quem só quer atravessar o período eleitoral sem cair em armadilhas e sem viver em estado de alerta permanente. 


O que muda de verdade quando a IA entra nas eleições? 


Quando se fala em IA nas eleições, muita gente imagina apenas vídeos falsos de candidatos dizendo coisas absurdas. Isso existe, mas é só a ponta do iceberg. 


O impacto maior vem de quatro mudanças simples: 


  1. Velocidade: produzir conteúdo persuasivo (texto, imagem, áudio) vira tarefa de minutos. 
  2. Escala: uma equipe pequena consegue publicar como se fosse uma equipe enorme. 
  3. Personalização: mensagens podem ser adaptadas para “conversar” com públicos diferentes. 
  4. Ambiguidade: fica mais difícil ter certeza do que é real, do que é editado, do que é encenado e do que é inventado. 


Isso mexe com um recurso valioso da vida pública: confiança. E confiança não é um detalhe; é o chão onde debate, imprensa, instituições e eleitor caminham. 


Onde a IA pode ser um recurso valioso nas eleições 


Vamos começar pelo lado bom — porque ele existe e pode ser muito prático. 


Acessibilidade e inclusão: política em linguagem mais humana 


Uma eleição tem muita informação difícil: regras, propostas, comparações, dados. A IA pode ajudar a traduzir isso para linguagem simples, produzir versões em Libras, gerar legendas melhores, resumir planos extensos, adaptar conteúdo para pessoas com baixa visão ou baixa familiaridade digital. 


Não é “enfeite”. É dar acesso para mais gente participar do debate, com menos barreira.

 

Atendimento ao cidadão: respostas rápidas sem “jogo de empurra” 


Em período eleitoral, dúvidas operacionais explodem: como regularizar título, local de votação, horários, o que pode ou não pode. Assistentes virtuais bem construídos podem reduzir gargalos e melhorar o serviço — desde que sejam transparentes e responsáveis. 


Combate a golpes e fraudes com apoio da IA 


A IA também é usada para defesa: identificar padrões de abuso, priorizar denúncias, achar comportamentos coordenados e reduzir o tempo entre “surgiu um boato” e “alguém percebeu que explodiu”. 


Autoridades eleitorais vêm reforçando cooperações e iniciativas com esse objetivo, especialmente no combate a deepfakes e desinformação eleitoral. 


Educação política: comparar propostas sem se perder 


Existe um uso que pode ser muito saudável: ferramentas que organizam informações públicas e ajudam a comparar propostas sem transformar tudo em torcida. 


O desafio aqui é governança: quem alimenta a ferramenta, com quais fontes, com quais limites e com qual transparência. 


Onde a IA vira ameaça nas eleições (e por que isso vai além das fake news) 


A desinformação é antiga. O que a IA faz é mudar o “tamanho do estrago” e o “tempo de reação”. 


Deepfakes: quando o vídeo “prova” algo que nunca aconteceu 


Deepfake é, em termos simples, uma mídia sintética (vídeo, áudio ou imagem) que imita uma pessoa de forma convincente. Ele pode ser usado como arma emocional: chocar, revoltar, humilhar, “cravar” uma mentira com aparência de evidência. 


Por isso, o TSE passou a tratar deepfake como prática proibida na propaganda eleitoral. 


Golpes com voz: o “ouvi com meus próprios ouvidos” 


Um risco ainda subestimado é a voz sintética. Golpes por telefone e áudio em aplicativos se tornam mais críveis quando a voz “parece” de alguém conhecido. 


Nos EUA, a FCC reconheceu chamadas com voz gerada por IA como “artificiais” para fins de combate a robocalls e fraudes. 


Produção em massa: muito conteúdo, pouca responsabilidade 


Mesmo sem deepfake, a IA permite a criação industrial de textos, memes, comentários e páginas que parecem espontâneos. Muitas vezes, o objetivo não é convencer — é confundir, cansar e desmobilizar. 


O risco mais perigoso: “se tudo pode ser falso, nada importa” 


Quando todo mundo sabe que a IA pode criar manipulações convincentes, surge uma desculpa pronta para negar fatos reais. Esse fenômeno é conhecido como liar’s dividend: a dúvida permanente vira ferramenta de quem quer escapar de responsabilidade. 


Regras e transparência: como o mundo tenta organizar o caos 


No Brasil, a diretriz é clara: é permitido usar IA, desde que haja transparência, e é proibido o uso de deepfakes na propaganda eleitoral. 


A eleição de 2026 será o primeiro grande teste prático desse conjunto de regras. 


No cenário internacional, a União Europeia colocou em vigor o AI Act, que estabelece obrigações graduais para usos considerados de alto risco. 


Mesmo fora da Europa, isso importa: plataformas e produtos globais tendem a adotar padrões mais restritivos de forma ampla. 


Como lidar com eleições e IA no dia a dia 


Troque “certeza instantânea” por confiança construída 


Conteúdos eleitorais exploram emoção. Se algo gerar urgência, raiva ou medo, trate isso como sinal de alerta, não como prova. 


Três perguntas antes de compartilhar 


  • Quem está dizendo isso? 
  • Onde mais isso apareceu? 
  • O que eu perco se esperar 10 minutos? 


Reconheça o padrão da manipulação moderna 


  • recortes sem contexto 
  • prints sem link 
  • áudios sem origem 
  • pedidos explícitos de compartilhamento 


A IA acelera esse pacote. 


Em organizações, prepare o plano de resposta 


Mais importante do que “postar rápido” é saber como responder quando algo der errado: canal oficial, triagem, tempo de reação e cuidado para não amplificar boatos. 



Para que você possa se aprofundar ainda mais, recomendamos também a leitura dos artigos abaixo: 


Inteligência Artificial e BI: O Futuro da Análise de Dados 


Eleições 2024: O papel do BI na apuração de votos em tempo real 


Tudo o que você precisa saber sobre o futuro dos Agentes de IA está aqui 


Conclusão: a eleição mais importante acontece dentro da sua atenção 


A Inteligência Artificial pode tornar a política mais acessível, mais compreensível e mais eficiente. Mas também pode acelerar boatos, corroer confiança e alimentar cinismo. 


O impacto final da IA nas eleições não será definido só pela tecnologia, mas por regras, incentivos, responsabilidade institucional — e pequenos hábitos individuais. 


No fim, a melhor defesa não é dominar tecnologia. É algo mais simples: quando algo te fizer reagir rápido demais, pare um pouco — porque é exatamente aí que a manipulação costuma ganhar força. 


Esperamos que você tenha gostado do conteúdo desse post!  


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