Integre sistemas antigos sem criar um “monstrinho” de TI

Romildo Burguez • August 27, 2025

Se você lidera TI em uma empresa consolidada, certamente já viu essa história: um sistema conversa com outro por meio de um recurso temporário, que vira a solução oficial. Depois chegam mais pedidos, mais integrações, mais urgências. Em alguns meses, nasce uma “criatura” difícil de entender, cara de manter e que sempre escolhe os piores dias para apresentar problemas: no fechamento do mês, na virada de campanha ou no faturamento de grandes contas. A boa notícia é que dá para integrar o legado sem criar esse bicho. O caminho é simples de explicar e disciplinado de executar: escolher bem por onde começar, trocar acoplamento por mensagens de eventos, capturar mudanças sem cutucar o core, e modernizar por etapas, sem parar a operação.


Nesse post, vamos traduzir conceitos em decisões práticas, mostrar como organizar um plano de 90 dias e sugerir medidas de sucesso que falam a língua do seu negócio — visando menos incidentes, mais previsibilidade e entregas contínuas.


Continue a leitura e saiba mais!


Não dependa de soluções temporárias


Soluções paliativas e temporárias nascem de decisões legítimas, tomadas sob pressão. A urgência pede algo que funcione imediatamente. Um script noturno, um conector “temporário”, uma lógica de negócio que escapa do sistema e se esconde no enterprise service bus (ESB). Quando percebemos, a informação só anda se passar por atalhos frágeis, dependentes de pessoas específicas e horários rígidos. Trocar o pneu com o carro andando vira rotina…até que o pneu estoura.


Três sinais de alerta merecem atenção imediata:


  • Integrações ponto-a-ponto se multiplicando (cada nova conexão depende intimamente da anterior).


  • Batches noturnos que “apertam o relógio” e empurram problemas para o dia seguinte.


  • Lógica de negócio fora do lugar, escondida em plataformas de integração que viraram mini-sistemas paralelos.


Evitar “criar monstros” significa combater esses três pontos com uma abordagem que privilegia autonomia, observabilidade e mudanças pequenas. Em vez de conectar sistemas diretamente, nós publicamos fatos (eventos) sobre o que aconteceu e deixamos que os interessados assinem essas novidades. Em vez de mexer no core, capturamos as mudanças onde elas naturalmente ocorrem (no log do banco) e as transformamos em eventos. E, em vez de “big bang”, desacoplamos por fatias, substituindo aos poucos o que já existe — sem parar o que está funcionando.


Os três pilares da integração


Eventos (event streaming)

Pense em um quadro de avisos digital onde os sistemas deixam recados do tipo “Pedido 123 foi faturado” ou “Medição do cliente X foi validada”. Quem precisa dessa informação assina o recado e age. O benefício é enorme: você não precisa perguntar toda hora “e aí, já mudou?” — você fica sabendo quando muda. E, como a mensagem é pública, vários sistemas podem reagir sem criar uma teia de dependências escondidas.


CDC — captura de mudanças onde elas nascem

Em vez de programar o core para “avisar” sempre que algo mudar (o que exige riscos de alteração), o CDC lê o registro de mudanças do banco de dados e identifica o que foi inserido, alterado ou removido. É como instalar um sensor na trilha de auditoria do banco. Você não cutuca o sistema, mas sabe o que aconteceu. Isso reduz impacto nos times que sustentam o legado e acelera a entrega.


Desacoplamento incremental

Esqueça “vamos reescrever tudo”. A ideia é estrangular o acoplamento aos poucos: você escolhe um fluxo (por exemplo, “cadastro de cliente”), publica os eventos corretos, faz um consumidor novo ler esses eventos, testa, passa a usar… e repete. Cada pedaço substituído diminui o risco do restante. No final, você tem uma arquitetura mais limpa, sem nunca ter parado a operação.


Por onde começar quando o time é enxuto


Com poucos recursos, a disciplina pesa mais do que a ferramenta. O segredo é focar em três fluxos que combinam alto impacto de negócio com baixo risco técnico. Para encontrá-los:


Converse com Operações sobre os momentos críticos do mês (fechamento, faturamento, auditorias). Liste situações em que o atraso de dados vira reprocesso ou multa.


Converse com os Donos de Produto dos sistemas core (faturamento, CRM, manutenção) e peça os pontos do roadmap que vivem travando por “dependência de integração”.


Converse com Segurança/Regulatório e entenda o que é inegociável (LGPD, auditoria, segregação OT/IT quando aplicável).



Converse com DBA e dados para mapear as bases elegíveis para CDC sem dor (evitar gatilhos, preferir leitura do log do banco, respeitar janelas de manutenção).

Dessas conversas saem três candidatos. Em cada um, você define o evento principal (“medição validada”, “pedido faturado”, “ordem finalizada”), o tempo aceitável para que essa notícia circule (segundos? minutos?), quem publica e quem consome. Só então você fala de ferramenta.


O plano de 90 dias


Você não precisa de um “projeto gigante”. Precisa de um roteiro comprovável em três etapas de 30 dias.


Dias 0–30: preparar o terreno.

Você cria as bases: catálogo de eventos iniciais (nome simples, conteúdo mínimo, quem envia/recebe), um ambiente de mensagens (o “quadro de avisos”), e define como vai observar se tudo está bem (painéis que mostram latência, fila e taxa de erro). O CDC entra no piloto do primeiro fluxo. O time aprende a lidar com reprocesso (se algo falhar, como refazer sem duplicar?) e com contratos de dados (o combinado sobre o formato da mensagem).


Dias 31–60: colocar dois fluxos de pé

O primeiro fluxo entra em produção com guarda-chuva: alarme, rollback e canário (liberar para um conjunto pequeno de consumidores primeiro). O segundo começa a ser habilitado em paralelo. A essa altura, vocês já têm o básico de governança: quem “é dono” de cada evento, quem aprova mudanças no combinado, e onde ficou registrado o histórico de versões.


Dias 61–90: expandir com segurança

Agora o objetivo é repetir o padrão. O terceiro fluxo entra no ar. Os painéis ficam maduros, com metas claras (tempo médio que a mensagem demora a chegar, quantidade de erros em um período, fila máxima tolerável). A operação deixa de ser no escuro: quando algo atrasa, você vê. Quando algo falha, você sabe onde e por quê.


Ao final de 90 dias, a empresa colhe três efeitos muito visíveis:


  • Menos retrabalho, porque a informação chegou quando precisava;


  • Menos incidentes escondidos, porque o time enxerga o caminho das mensagens;


  • Mais velocidade de mudança, porque novos sistemas se plugarão aos mesmos eventos, sem pedir favores à equipe do legado.


Observabilidade: operar no claro


Integração boa não é a que nunca falha; é a que falha de forma visível, controlada e recuperável. Por isso, três perguntas precisam de respostas objetivas:


Latência: quanto tempo a notícia pode demorar? Se o faturamento precisa saber da medição “em até 2 minutos”, seu painel precisa gritar quando isso é ultrapassado.


Fluxo: quantas mensagens estão em fila agora? Isso está crescendo ou diminuindo?


Erros: quando algo não foi entregue, ele ficou guardado? Há uma área separada para o que “deu errado” e precisa ser reprocessado depois, com segurança?

Quando esses painéis existem, o time para de “adivinhar” e pode agir preventivamente. E a liderança deixa de ser surpreendida por apagões noturnos que explodem pela manhã.


Segurança e compliance desde o desenho


Privacidade e segurança não entram no final — entram no desenho do evento. Isso significa perguntar, para cada mensagem: qual é a base legal? Qual é o mínimo de dados que precisamos enviar para cumprir o objetivo? Por quanto tempo isso deve ficar disponível?


Em setores com ambientes industriais (como Energia), a atenção se redobra: sistemas de operação (OT) e de gestão (TI) precisam de fronteiras claras. É comum inserir uma zona de proteção entre eles (uma “ante-sala” de segurança) para que nada do mundo de controle seja exposto diretamente. O evento carrega informação de negócio, não comandos de operação. Assim, você compartilha o que importa, sem abrir portas indevidas.


Governança leve: quem cuida do quê


Governança não precisa ser sinônimo de comitês mensais intermináveis. Um modelo leve resolve:


Dono do evento: alguém com telefone e e-mail que responde por mudanças e qualidade daquele recado.


Combinado de dados (contrato): um documento vivo, simples, com exemplo real de mensagem, campos obrigatórios e opcionais, e um histórico de versões.


Catálogo acessível: onde as pessoas procuram e descobrem “quais recados já existem” antes de inventar um novo.


Regras de versão: se o formato muda, como não quebrar quem consome? Regra de ouro: adições são compatíveis; remoções exigem planejamento.


Esse trio — dono, combinado e catálogo — evita que a integração volte ao improviso.


Mitos e verdades que travam decisões


“Se for tempo real, vai custar uma fortuna.”

Nem tudo precisa ser no segundo. Defina o tempo necessário por fluxo. Muitos casos ganham muito com minutos — e isso é perfeitamente viável com ferramentas comuns e serviços gerenciados.


“Sem reescrever o core, não tem jeito.”

Tem, sim. Capturar mudanças onde elas já acontecem e publicar o recado certo resolve uma parte enorme do problema sem mexer no coração do sistema.


“Nosso ESB resolve tudo.”

O ESB é ótimo para orquestrar e transformar, mas ele não deve virar o guardião da lógica do negócio. Use-o como meio, não como fim.


“Precisamos padronizar tudo antes de começar.”

Padronize o mínimo viável (nomenclatura, dono, combinado) e comece por três fluxos. O resto se ajusta com aprendizado real.


“Integração boa é a que ninguém vê.”

Integração boa é a que todo mundo enxerga: quando está saudável, quando está atrasada, quando precisa ser reprocessada. Invisível é perigoso.


Um exemplo prático para o setor de Energia


Imagine o fluxo Medição → Validação → Faturamento. Hoje, talvez tudo dependa de um arquivo noturno. Se ele atrasa, o dia seguinte começa com “mutirão de planilha”.


Como ficaria com eventos e CDC?

O sistema de medição registra leituras ao longo do dia. O CDC percebe essas mudanças no banco e publica “Medição Coletada” com o essencial: unidade consumidora, período, valor e carimbo de data.


O serviço de validação assina esse recado. Quando conclui a checagem, publica “Medição Validada” — que pode incluir um status e motivos de ajuste.


O faturamento não vasculha o banco do vizinho nem espera planilhas. Ele ouve “Medição Validada” e dispara seu processo.


Os painéis mostram, em tempo quase real, quantas leituras estão no caminho, quanto tempo levam e onde pararam. Se algo travar, a mensagem problemática vai para uma “área de espera” segura e pode ser reprocessada sem duplicar faturas.


Qual é o ganho? Menos corrida contra o relógio, menos retrabalho, menos surpresas no fechamento. E, de quebra, você fica pronto para plugar análises e alertas sem pedir licença a quem cuida do core.


Para que você possa se aprofundar ainda mais, recomendamos também a leitura dos artigos abaixo:


O papel de um parceiro de tecnologia na transformação digital

Trocar ou reformar seu sistema? Saiba como tomar a melhor decisão

Do legado à nuvem: modernize os sistemas core sem parar sua operação


Conclusão


Integrar sistemas antigos não precisa virar sinônimo de remendo eterno. Dá para modernizar com calma e firmeza, colocando comunicação por eventos onde ela faz sentido, capturando mudanças sem ferir o core e trocando acoplamento por contratos simples. O resultado é um ecossistema que reage aos fatos, visível por dashboards, governado por donos claros e com menos sustos no calendário.

Se você é líder e vive o dilema de manter o core de pé enquanto entrega inovação, este é um caminho que respeita a sua realidade. Comece pequeno, escolha três fluxos, meça o que importa e repita o padrão. Em 90 dias, o monstrinho que parecia inevitável vira apenas uma história que você conta — com orgulho — de como a sua TI ficou mais leve, previsível e conectada ao que realmente move o negócio.


Esperamos que você tenha gostado do conteúdo desse post! 

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